"Vem por aqui"

17/11/2016
Foto: Lin Caitano
Foto: Lin Caitano

Eu não tenho certeza sobre quase nada, mas uma das certezas que me resta, é com a qual em conduzo a conclusão, de que a vida e imensamente mais vazia e mentalmente mais dura, imensamente mais triste, melancólica, vazia, depressiva.

Se não me houver possibilidade de ler, me transporta para lugares, de fazer essa aventura de acompanhar o navio baleeiro em busca de Moby Dick e de refazer minha vida a cada página, a cada instante.

Nunca serei um intelectual, mas repito como na Tabacaria do Fernando Pessoa, que não sou ninguém, obviamente nunca serei ninguém, mas tenho em me, tudo e todas as esperanças humanas. Foram os livros que me deixaram desejosos de permanentemente, para sempre, em quanto eu tiver um suspiro em me, de ler, de descobrir, o resto tirando os livros, tirando a descoberta que eles se referem, o resto eu repito, O Meu Doce Príncipe, o resto é silêncio.

Que como Negrinha, tenho livre esse silêncio brutal que hoje se chama contemporaneidade, um silêncio absoluto que ninguém diz nada, nunca escuta ninguém e todos curtem o vazio absoluto, que vai e que volta. De frases perdidas, de quem não consegui olhar para a Medusa e dizer, "Eu prefiro virar pedra, mas olhar direto para Viet, do que levar essa vida neutra, morna, sem sentido e sem sabor, da certeza absoluta."

Cântico Negro

(José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira)

Dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Texto: Guilherme Antonio

Guilherme Antonio de Souza Silva
Desenvolvido por Webnode
Crie seu site grátis! Este site foi criado com Webnode. Crie um grátis para você também! Comece agora